A incrível história de Mané Vieira e a surucucu siamesa

Fotografia: Letícia Portela

 Já se passaro três meses que Minervina se arredo de vorta pra capitá. No primeiro dia de sua partida me deu uma moleza, moço, que nem da cama consegui me alevantar. Minha pobre mãezinha, coitada, teve que trazer nas anágua do vestido um pedacim de bolo de carimã lá da casa de Coroné pra ver se eu me animava. 

Mas ômi, a leseira se apossou de meu corpo quente. Dia e noite, noite e dia ficava eu a delirar, pensando nos lábio de Minervina. Carecia de ser macio daquele jeito? Ainda bem que quando se beijamo, Zé Inácio não tava perto. Aquele ali tem um ciúme brabo da irmã, só porque nasceram gêmeos e ao mesmo tempo. 

Na hora que Don’Ana teve as contração, a parteira avisou logo que ia ter que cortar a barriga. Coroné Francisco Valente, cabra de coragem do jeito que é, danou-se a chorar. Parecia até criança quando rela o joelho. Se não fosse Mané Vieira a pegar o facão e cortar a barriga de Don’Ana, morria todo mundo ali. 

O facão entrou para história. Já ouvi dizer até que é mágico. Comé que pode, fazer um rasgo na barriga de alguém e não sair uma gosta de sangue? Como diria a senhora minha vó, “eis o mistério da fé”. Naquele dia, Minervina, antes mesmo de olhar o mundo, botou os braços pra fora e Zé Inácio a perna. Coroné Francisco Valente deu um grito daqueles e achou que seus próprio zóio tavam lhe enganando. Que aqui no sertão acontece de tudo, mas recém nascido botar as parte do corpo pra fora por vontade própria, isso aí foi evento único...

Desde então os gêmeo só vive grudado. Parece até sombra um do outro. E o dia que eles tinham ido passear com Cumpade Mané Vieira lá na venda de Seu Bareta e apareceu uma surucucu siamesa?

Não duvide de mim que eu não sou moleque de inventar lorota. Eu vi com esses zói que a terra há de comer: uma só cobra, mas com duas cabeça, quatro língua e mais de três metro de cumprimento. Minervina ficou hipnotizada. Ia se achegando pra perto do bicho como se fosse lhe fazer um dengo. Lá de longe eu ouvia os grito de Seu Bareta, “sai daí moleca”, “Zé Inácio, em nome da santíssima trindade, vá salvar sua irmã”, “Zé, seu embuste, fí de jumenta, ajude Minervina”...

Eu até queria ajudar, moço, quem não deixava era minhas perna que tremia mais que terremoto. Por sorte Mané tava lá com o facão. Ele puxou a lâmina afiada e foi só uma rajadada assim, PLACT! As duas cabeça da surucucu siamesa caíram de uma só vez. Mané virou herói. O Coroné até mandou rezar uma missa em sua homenagem e depois deu uma festança que adurou mais de cinco dias. Até hoje as moça suspira ao contar esse causo. Ômi danado é aquele Mané Vieira.

Quando crescer quero ser brabo assim igual ele. Quem sabe eu não tomo coragem e peço a mão de Minervina. Deixa ela voltar de novo da capitá, que ela vai é ver do que esse Zé é capaz...


Comentários

Postagens mais visitadas