A Rainha Jade e seu paraquedas verde

 



A Rainha Jade caiu de paraquedas no Planeta Caaju. Assim mesmo: sozinha, num paraquedas verde. Um paraquedas verde perdido na imensidão do espaço. O espaço infinito, cheio de estrelas e nebulosas, cheio de discos voadores, satélites e luas. O espaço infinito cheio de coisas e mais uma: o paraquedas verde que levava em si a Rainha Jade, de olhos esbugalhados e um grosso casaco de lã.

E, num dia de sol. Num dia de sol sem nuvens. Num dia de puro sol e azul no céu do Planeta Caaju, o paraquedas verde surgiu, como se fosse um pássaro, um lento pássaro a voar por todo o Caaju, sem rumo. Mas tinha rumo. O lento pássaro que era o paraquedas verde e levava em si a Rainha Jade, tinha rumo. Como se pairasse no ar esperando que o Planeta desse três voltas em torno de si e uma inteirinha ao redor do seu sol, só após esse período, o paraquedas verde pousou.

Ainda com os olhos esbugalhados, se livrando aos poucos das cordas que a prendiam ao paraquedas verde, a Rainha Jade ergueu a cabeça e olhou pela primeira vez as Fervorosas Terras do Norte. Espaças, férteis, misteriosas. As Fervorosas Terras do Norte eram mesmo diferente. Fazendo divisa com Pasárgada e não muito longe do Oceano do Mel, o lugar era calmo. Parecia que ele próprio tinha vida. Muito provavelmente, se as Fervorosas Terras do Norte fosse uma pessoa, ela seria uma pacata velhinha, tímida e sábia. Talvez, a mais sábia de todo o Planeta. 

Como se pudesse prever as mil aventuras que ali viveria, a Rainha Jade ergueu a cabeça e olhou pela primeira vez todo aquele lugar. Olhou até aonde seus olhos podiam ir. Centrou-se no horizonte e, de maneira vagarosa, percorreu com o olhar uma trilha imaginária que, por fim, chegou até seus pés. Seus pés fixos, imóveis, inertes. Ali, seus pés, pela primeira vez pisando nas Fervorosas Terras do Norte. Mais adiante no tempo, quando outro paraquedas verde veio buscá-la para partir, a Rainha Jade, já sábia e senil, percorreria com o olhar a mesma trilha imaginária que, na primeira vez, desaguou nos seus pés fixos na terra. Nesse mesmo momento, mais adiante no tempo, ao olhar para os seus pés, a Rainha Jade perceberia que eles já estavam no ar.

Porém, depois do seu primeiro momento reflexivo em terra firme, a Rainha Jade mexeu os pés e andou. Andou através da trilha imaginária e, ao longo de um piscar de olhos, que durou uma média de cinco dias, chegou a um vilarejo. Um vilarejo pequeno e aconchegante. Um vilarejo pequeno e aconchegante com pessoas minúsculas, que mais pareciam duendes. E as pessoas minúsculas, que mais pareciam duendes, estavam reunidas, ao redor de um banquete, à sua espera. A Rainha Jade se aproximou e reverenciou a todos. Todos também a reverenciaram em retribuição.  Convidaram-na para comer. Convidaram-na para comer aquela variedade de experimentos gastronômicos oriundos das Fervorosas Terras do Norte e famosos em todo o Caaju. A Rainha Jade, que sempre fora comedida, nesse dia se fartou, comendo de mão e lambendo os dedos gordurosos em seguida.

Após o jantar, as pessoas minúsculas que pareciam duendes ouviram com atenção a história da Rainha Jade. Ela tinha nascido no meio do espaço. Era órfã de pai e mãe, mas tinha tias, estrelas, que cuidaram dela durante todo o tempo de sua infância. Se tinha fome, suas tias alimentavam-na com luz e, se sede, o espaço fazia brotar alguma nuvem gorda de algodão que despejava gotículas de água em sua boca. Aprendera a falar com o vento, começou assobiando, mas, após pegar o jeito, entendeu como emitir palavras e usá-las para cantarolar. Consagrada Rainha por Apolo, o Deus Sol Supremo, ela tinha olhos esbugalhados porque tudo, absolutamente tudo a impressionava. Sempre estava em alerta, atenta para os detalhes do universo. O casaco grosso de lã, fora dado quando completara 15 anos, por um primo cometa que passou depressa, a viu, simpatizou com a Rainha e logo voltou para conversar um pouco. 

Ela era uma pessoa como outra qualquer. Tinha pernas, braços, boca e ouvidos. A única coisa que a diferenciava dos demais, era que, ao invés de um coração, a Rainha Jade tinha uma fogueira no peito. Um fogareiro que nos dias melancólicos ficava sereno, parecendo que iria se apagar para virar brasa, mas, nos dias de extrema alegria, soltava labaredas pelo espaço e aquecia todos os astros ao seu redor. Um dia, no meio do nada, o seu paraquedas verde começou a voar para o Universo Miraculoso do Sul e, distraído com o que o passava, acabou trombando nas costas de Minaví, grande feiticeira do espaço. 

Minaví, grande feiticeira do espaço tomou um susto e olhou incrédula para a menina que, vergonhosa, explicou que o seu paraquedas era desengonçado. Ele levava-a para onde bem queria, mas não tinha o mínimo de traquejo e vivia a se esbarrar nos seres. Certa tarde mesmo, brincando de pega-pega com um Quasar Bebe que encontrara no caminho, a Rainha Jade, em seu paraquedas verde acabou esbarrando em um muito mal educado Buraco Negro que não gostou nada nada do esbarrão e ficou furioso, gritando no infinito do espaço e ameaçando comer todas as estrelas que estavam perto de si. Minaví deu uma grande gargalhada com a história da Rainha e a convidou para tomar um cappuccino e contar um pouco da sua vida solitária.

Nesse exato instante, a feiticeira e a rainha criaram amor uma pela outra. Jade acabou ficando alguns anos luz no Universo Miraculoso do Sul e, em alguns momentos, pode apreciar, através da luneta mágica de Minaví, como era a vida em outros planetas. Observou um lugar chamado Terra e seus habitantes. Não gostou muito lá, exceto por uma banda de rock chamada New Order que, toda vez que tocava, fazia labaredas saírem do peito da Rainha Jade. Observou também o planeta do Pequeno Príncipe e a sua bonita flor, mas sentiu que ali não lhe cabia. 

Foi quando tudo aconteceu. Minaví olhou um terráqueo feliz, nas terras de Sambaituba, a laçar bezerros com seu avô, e, do seu grito de alegria, captou aquele som numa caixinha mágica, foi com as outras feiticeiras a um lugar ermo no universo, soltou o grito e daí nasceu o Planeta Caaju. Maravilhada com os novos acontecimentos, a Rainha Jade percebeu que só um lugar criado daquela forma poderia ser a sua residência. Em nome da amizade que tinha feito com Minaví, pediu-lhe para que pudesse também morar lá. A Feiticeira concedeu-lhe o pedido, com a condição de que, quando estivesse bem velhinha, ela retornasse ao espaço para contar às tias estrelas e a todos os astros, tudo que vivera no Caaju. A Rainha Jade aceitou e, dessa forma, ela foi parar nas Fervorosas Terras do Norte.

Quando terminou de contar a sua história, os Greenlaudes, como eram conhecidas as minúculas pessoas que pareciam duendes, estavam encantados com a Rainha Jade e toda a sua história. Eles lhe contaram também que as Fervorosas Terras do Norte, durante todo esse tempo fora ameaçada pelos assombros dos Gigantes Terríveis, mas havia uma antiga profecia que dizia que quando o povo tivesse perdido toda a esperança, um novo verde cairia dos céus e faria brotar fogo de magia e de mudança no peito dos que tivessem crença. Seria a Rainha Jade a consumação da profecia? E, junto com os Greenlaudes, seria ela a derrotar e expulsar os Gigantes Terriveis das Fervorosas Terras do Norte? Minaví observava tudo, bem de longe, através da sua luneta mágica e, mesmo sem poder interferir, torcia com toda a crença que havia em seu coração, para que a resposta fosse sim.

 


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