Andreia
“Além do limite do vale profundo que sempre começa na beira do mar” ou Fonemas em análise daquela que se despede...
Sabia que iria lhe escrever uma carta bem antes de tomar consciência dela. Foi assim, de súbito, em uma noite quente e sem estrelas. O suor me escorreu pelo corpo ávido e meus olhos se abriram. Na inquietude do silencio noturno, sabia que iria lhe escrever uma carta bem antes de tomar consciência dela.
A inexatidão das palavras me levou a outras horas, dias, acontecimentos até que, por fim, cheguei ao ponto de partida, onde me traduzi em plena lucidez: de frente para o mar. E aqui estou, nesse instante do agora, que não será o mesmo em que irei digitar os meus rascunhos e te enviar (se é que enviarei), impulsionando reações que não me cabem prever... Veja bem, essas silabas, fonemas, virgulas e consoantes carregam em si o dom da união de presentepassadofuturo. Mais que isso, este manuscrito, independente do cenário em que foi concebido, carrega a mim mesma, ser permanente no ininterrupto estado da vontade de potência.
É ela quem me move e me significa como multiplicidade de sentidos e contemplação. Acho que nunca chegamos a esse ponto, tão profundo e delicado, tão meu e de todo mundo: o de entender o que nos toca quando miramos a vida ao nosso redor. Onda, gente, bicho, fronha, cor, sorvete de flocos, aquela música do Ben, o cheiro da mata, o sorriso da pessoa desconhecida que passa e carrega consigo meu coração. Não, não era nada disso o que eu queria te dizer...
Agora, não venho em forma de paciente ou terapeutizada – embora o tenha sido -, mas sim de sujeito (oculto, talvez?) que provou todos os gostos – de forma indistinta – da vivencia de um processo dentro e fora do divã. As dores e dilemas, alegrias e gozos, a fala, o olhar, o espelho e o silêncio da boca do mundo, tudo isso me fez chegar a um lugar que ainda não identifico em sua inteireza, mas que é acolhedor. Nesse novo espaço não existe hostilidade, talvez ironia, sarcasmo, uma pitada de provocação, cheiro de flor, plantio e colheita, mas nunca hostilidade.
Tem sido bom, digo, estou bem! Com as mesmas indagações em torno da ontologia do ser, com as mesmas tiradas sem graça e a plena certeza kaóotica de que sou movida por paixões. E então, talvez, você me pergunte (ouço sua voz em meus pensamentos) “o que mudou?”. Acredito que a pressa e aceitação. Aqui, nessa ribanceira, aluvião, aqui, nesse novo lugar “não há pecado nem perdão”. Sem culpa eu sigo e, por assim sê-lo, caminho sem a avidez de ter que me explicar para o universo. Eu existo e isso me basta. Sou errática e isso me consola. Sinto saudade, sinto fome, tenho sono, choro e rio. Dou um passo à frente, 3 atrás, pulo, corro, paro, posso e quero ser assim. Sustento o meu querer...
É porque te vi e, logo na sequência, me enxerguei. Pensei ser desejo, ver a ti e a mim. Ledo engano. Naquele momento não havia desejo, apenas a dor de um ego fragilizado pelo id e pelo super. Eu, amarrada a mim mesma, acorrentada aos meus demônios impiedosos. Era tola por ter medo do que me assombrava, mas não você. Você percebeu e me cortou e me feriu e sacudiu as minhas verdades dicotômicas enraizadas no que eu sequer acredito. E, a partir disso, aterrorizada, percebi que os monstros de minha alma não são tão feios assim. Hoje, divido a cama com todos eles, dormimos juntos, por vezes, até nos abraçamos. Ouso dizer que eu e meus demônios mantemos uma relação amistosa, de reciprocidade e empatia. Eu cuido deles e eles cuidam de mim.
E nesse cuidar, nesse cuidado, me libertei e passei a me ver em inteireza, passei a me aceitar e me querer como sou. Veja você (“onde é que o barco foi desaguar”...), quem me trouxe a esse novo lugar que aqui estou não foi a coragem de assassinar a minha dor, mas a minha humildade em honrar sua grandiosidade e existência. Ela também me traduz, ela também sou eu.
Ainda que eu me despeça – sim, essa é uma carta de despedida - não pense que te amo menos por decidir ir embora. Ou que não lhe sou grata. Ou isso ou aquilo ou aquilo outro. Tenho em mim de tudo um pouco, amor, gratidão, isso e aquilo e aquilo outro e, mesmo assim, opto por partir, por lhe dizer adeus ou um até breve, vai saber. Você foi, durante todo esse tempo você foi e ponto. Agora, cabe a mim ser sem você. Parto para um dia voltar, como também parto para nunca mais te ver. Nesse oceano que agora nos separa, lhe deixo essa carta, engarrafada, com existência em expansão e um fragmento do meu peito.



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