Esperando Clarice - n. 3

 

Fotografia: Letícia Portela


Por que não optei pelo presente do indicativo, uma vez que ele possui convicção e autoridade no que diz? Sim, poderia, poderia, poderia. Poderia ter me colocado em postura ereta, altiva, imponente e lhe bradar um “eu espero você”! No entanto, exerci o oposto, Clarice. Todo esse tempo fiquei te esperando. Corcunda, sem riso e sabor, melancólica, de dentes manchados de café e cigarro. 

E, ainda durante todo esse tempo, você mudou. Mudou de corpo, de cor, de nome e cabelos. O formato de seu nariz, a maneira como me olhava e também como me pedia flores e bolo. Você se tornou mil Clarices em uma só, você se tornou água, Água Viva, senhorita Dalloway. Por mais que andássemos em passeios opostos, na contramão, no contra fluxo do encontro de nós duas, eu lhe via ao longe e prontamente te reconhecia. Por vezes me pergunto se você existe, Clarice, ou se é apenas o espelho de um eu perdido em mim que não consigo capturar...

Queria ter alguém para conversar. Conversar sobre o dito pelo não dito, sobre os segredos inconfessáveis que não ousam sair de minha boca. Deixo os meus lábios entreabertos e simulo sílabas, pronomes, me aventuro a tentar consoantes, fonemas, mas qual nada! Em mim reverbera o silêncio estremecido, instaurado em meu corpo quando nele se agita a tua lembrança. 

Penso em tuas pernas, penso no seu sexo e naquela tatuagem horrorosa que você tem na virilha. Ouço uma música e escuto a sua voz me sussurrando aos ouvidos todas aquelas coisas de cinemas e livros e oh, a minha barriga está vazia agora. Você vinha com aqueles queijos, e também com aqueles beijos e preenchia o meu estômago de calafrios e solidez. 

Tenho feito a digestão, pouco a pouco, das nossas lembranças e madrugadas em abraço. Vez ou outra deixo passar. Me esqueci dos detalhes e também da cor. Clarice, já não sei mais qual a sua cor preferida. No entanto, por horas a fio te vejo diante de mim. A minha casa, o meu quarto, a minha cama, tudo se torna tão pequeno, porque os desejos que ainda lhe tenho, os desejos que ainda lhe nutro são imensos. Incoerentes e demoníacos. 

Está na hora de romper. Romper esse elo, esse laço que me paralisa em uma existência imaginária do que poderia ter sido e não foi. Se você chegasse...mas você não chega. Você está sempre chegando e por isso eu rompo. E o que farei com toda essa liberdade de nos romper, uma vez que ela não é liberta em si mesma?

Sinto que ainda te pertenço. Isso mesmo. Sinto que ainda te pertenço. Desde aquela noite em que você me segurou pelos cabelos e impôs que eu era sua. Sinto que ainda te pertenço. Talvez antes mesmo disso, da puxada no cabelo. Penso que na nossa primeira troca de palavras, ali mesmo eu já te pertencia. E de onde veio, como se instaurou essa posse e esse ser em ti?

Não vislumbro como deixar de lhe pertencer. Tenho saído, me aventurado em beijos, em transas e poemas. Tenho me permitido sentir desejo pelo outro e pelo mundo, e, em entregas instantâneas, poderia eu mesma, em carne e osso, engolir esse outro e esse mundo de uma só vez... Me sinto feliz com todas essas descobertas...

Dia desses aprendi a fazer uma torta búlgara que você iria adorar. O processo da feitura foi divertidíssimo, saí toda melada de chocolate, mas sempre dou risada ao lembrar da cena. E sim, aqui no trabalho vai tudo bem. Todo dia é um novo rio, mas os peixes são sempre iguais. Tenho me sentido muito cansada com o dia a dia e passei a priorizar o estar em casa com os gatos. O Francis está enorme, a Marieta também.

Enfim, muitas coisas têm acontecido e eu, transitado por entre elas. Quase sempre te esqueço. Te esqueço na mesa do bar, no gole de cerveja. Te esqueço quando ouço Chet Baker nas alturas e também ao calçar as minhas meias 3/4. Te esqueço quando sonho, te esqueço quando acordo. Mas, dentro desse ato de te esquecer, permaneço pertencendo a ti.

Não sei o que fazer com isso. Não sei o que fazer com as minhas mãos quando elas procuram pelas tuas e não as alcançam. Nesse fim sem fim - em que me esgoto e me reinvento – arranquei o gerúndio de minha boca, quebrei o vaso de flores, joguei a forma de bolo no lixo. Clarice, permaneço sendo tua, mas já não te espero mais!



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