Minervina
Fotografia: Letícia Portela
Era um sol da mulestia naquela tarde. Meu juízo queimava, minha cabeça ardia, meu zóio cegava com aquela claridade toda e Minervina ali, agitada, querendo montar em cavalo brabo e percorrer o pasto da fazenda. Onde já se viu moça recém chegada da capitá querer montar em cavalo brabo? Disse a ela que não, se quisesse, nóis ia passear em mula mansa, que eu não queria saber dela se machucando e depois o Coroné vim rancar meu couro fora.
Mas Minervina não arredava o pé. Ê muié cheia de vontade aquela ali. Queria porque queria montar no cavalo brabo naquela tarde de sol. Uma nuvenzinha no céu não tinha. O ar tava cheio de poeira vermeia da terra e o calor deixando nossos suvaco todo suado. Que é que eu podia fazer? Me negar a um pedido da moça é que eu não ia. Fui correndo em casa, enchi meu cantil de água fresca, selei Dorneles, o cavalo do Coroné e com Minervina na garupa meti o pé pra dentro, disparando estrada afora. Eita que o cheirão de cana invadiu minhas narina de uma só vez. O canavial tava cheio, em pouco tempo, já era hora de me preparar pra mais uma colheita. Minervina grudada em minha cintura ria e ria e ria. Deslumbrada com a paisagem ao seu redor, parecia menina besta, mas de besta não tinha era nada. Chegou ni meu ouvido, com voz mansa de quem quer pedir alguma coisa e disse “ê Zé, bota esse cavalo pra correr”. Eu oiêi pra ela de canto de olho e pensei “tu ta querendo né moleca safada, agora tu se prepara pra ver o que é bom”. Dei uma chicotada nos quarto de Dorneles que ele saiu doidho, menino. Nunca tinha visto ele correr daquele jeito. Ai cavalgamo, cavalgamo, cavalgamo, deixamo todo canavial pra trás, a casa, a fazenda, o Coroné, tudo tinha sumido. A única coisa que restava era eu, Minervina garrada ni mim, Dorneles embaixo de nóis e uma estrada larga em nossa frente. Nessa hora eu nem chamava de sol aquele negócio em cima de minha cabeça. Tava mais era pruma bola de fogo, derretendo tudo aqui na terra. Meu suor se misturava com o suor de Minervina e nossas roupa já era um rio, de tão móiadas que tava. A água do cantil tinha acabado fazia era tempo e minha boca parecia que tava com areia, de tão seca. Percebi Minervina cansando, mas, como era menina mitida a besta, não quis dar o braço a torcer. Só virou e disse que logo ali tinha um pé de manga e que ela queria coiêr umas pra levar pro Coroné. Aí paramo. Eu ate admito que eu também queria parar debaixo do pé da manga, porque tava uma sombra fresca, boa pra discansar. Quando descemo do cavalo, eu tratei logo de bolar um cigarro de paia porque eu tava já nervoso pra fumar. Minervina amarrou o vestido, deixando ele curtinho, mostrando as perna, e subiu no pé da manga. Ficou lá um tempo que eu não sei nem medir quanto que foi. Só sei que daí por diante tudo aconteceu muito rápido: eu tirei minha blusa pra ver se ela secava de todo aquele suor, apaguei meu cigarro de paia com a sola dos pé e pronto, foi nesse instante que Minervina se disiquilibrou em cima do gáio, gritou e caiu. Mas num foi no chão que ela caiu não. Minervina caiu foi bem no meio di meus braço. Aí, moço, eu oiêi pra ela todo preocupado, ela me oiôu como se eu fosse um herói e quando eu vi meus lábio já tava era grudado nos lábio dela. E eu nunca que tinha sentido aquilo na vida. O peito disparou de um jeito que eu achei que fosse morrer duro. E ó que já montei ni touro, já lacei bezerro, já mergulhei de cabeça ni cachoeira rasa, mas nunca, nunquinha que tinha perdido o chão como naquela hora. Minhas perna estremeceram, mas meus braço ganharam uma força de gigante. Com meus lábio ainda grudado nos dela, sigurei Minervina com tanto querer e só soltei quando nois dois perdemo o fôlego. Naquela tarde de sol da muléstia, beijei a filha do Coroné e pela primeira vez senti vontade de não ser mais um Zé Qualquer, e sim ser o Zé de Minervina. Minha cabeça zonzeando, ainda num entendia muito bem o que tava acontecendo. Minervina se soltou de mim e me encarando no meio dos óio, sorriu e disse que agora o passeio tava era completo. Montada em minha garupa, ela me abraçou forte todo o caminho de volta pra fazenda. Voltamo em silêncio, mas o mundo, moço, parecia gritar ao meu redor...


Comentários
Postar um comentário