Oliva
Aqui em Bodocó acontece coisa que contando nem parece obra de Deus. É tanta das história escabrosa, moço, que dizem até ser arte do Tinhoso ou então lorota de minha parte. Mas eu, Zé Qualquer, num careço de me promover não. Sou moço sério, trabalhador lá nas fazenda do Coroné Francisco Valente.
Falando nisso, era lá perto do Recanto Boa Vista do Coroné que morava numa casinha de sapé a família de Oliva. Tu num sabe quem é ela? Pois então tu é muito do besta e desavisado. O nome de Oliva corre solto em todas as bandas do sertão. Ela é a menina que assobiava e fazia chover, ajudando a vingar as plantação.
Falam por aí que por muito tempo Bodocó ficou sem chuva. A terra seca começou a formar umas rachadura. Os bezerrinho mal aprumado, as cabra, as vaquinha, tudo morrendo de fome. Foram tempos difíceis... até que um dia, Sinhá Tereza, sertaneja braba, engravidou pela sétima vez de seu marido, Cumpadi Domingos. Nesse dia, Padre Lagos teve uma visão de São Pedro descendo, pegando na barriga de Sinhá e dizendo que dela ia nascer uma menina linda, de zói esbugalhado, e que ia trazer água pra todo o sertão. Seriam tempos de muita prosperidade e abundância. São Pedro ainda disse mais: Afirmou que a menina devia se chamar Oliva e que era livre pra andar por aí. A única coisa proibida para ela era se embrenhar nas fendas do sertão. Isso não! Era perigoso demais.
Ronda aquela lenda, moço, que as fenda na verdade é tudo um portal para outro reino. E sendo assim, pra que o sertão permanecesse fértil, Oliva tinha que ficar por lá. Quando Cumpade Domingos soube da visão de Padre Lagos se arrupiou todinho. Fez até promessa de que a filha seria apadrinhada pelo santo se ela tivesse mesmo o dom de fazer brotar água no meio da secura.
Bom...nove meses depois, numa madrugada de muito calor, eis que a menina nasceu. Foi tanta da emoção, dos pulo de felicidade, que só depois de um quarto de hora Sinhá Tereza percebeu que o bebê desmilinguido não chorava. Na verdade verdadeira, Oliva fazia um biquinho com os lábio e assobiava uma linda melodia, bem suave, que embalou todo mundo num sentimento de paz. Nesse momento, uma gota de chuva fina passou pela janela e foi parar nas mãos da criança. A profecia tava era cumprida. Oliva era a nova senhora das águas!
E foi assim que ela cresceu. Curiosa, querendo pegar em tudo. Feliz, Oliva era muito feliz. Não sabia nem ler, nem escrever, mas dava nó ni pingo d’agua de tanta esperteza que ela comportava em si. Oliva adorava ir na feira roubar fruta das barraca ou então fazer rima com os repentista. Sempre que via uma jaguatirica, montava no bicho e ia assustar os irmão. Sinhá Tereza dava tanta da palmada, mas a menina nem ligava. Quando tava contente, assobiava e o toró caia. Teve uma época que até diziam que o sertão ia virar mar. Os alface, os repolho, as plantação tudo crescendo como Deus gosta. E os bezerrinho voltaro a ter sustança.
Tudo ia bem, até o dia que Oliva completou 7 anos e resolveu explorar os arredor de Bodocó. Foi ali que ela viu pela primeira vez as fenda gigante, capaz de engolir a cidade inteira. Foi uma coisa tão forte pra ela, que parecia até que tinham jogado feitiço naqueles óio esbugalhado. A menina ficou encantada, querendo se aproximar das fenda. Quem passava na hora por ali foi Cumpade Mané Vieira, sempre ele. Em cima da mula, pegou Oliva com um só braço e levou ela de volta para sua casa de sapé. Cumpade Domingos ficou doido, menino, e fez a filha prometer que nunca mais voltaria ali.
Mas não tinha mais jeito. Quando duas forças da natureza se apaixonam uma pela outra, não tem ser humano que consiga parar essa ligação. O reencontro de Oliva e das fenda não ia se ademorar, como não se ademorou...
Foi no dia sete do mês sete que a sétima filha de Sinhá Tereza e Seu Domingos fugiu sorrateiramente. Isso mesmo que o sinhô tá pensando, moço, ela foi de encontro às fenda de Bodocó. Arre égua, naquele dia uma nuvem no céu não tinha não. Andando vagarosa como se tivesse prestes a descobrir um grande tesouro, Oliva foi se aproximando da fenda maior e, quando chegou na sua margem, que mais parecia um precipício... a menina pulou e sumiu. Escafedeu-se. Nunca mais se teve notícias dela e o sertão voltou a ficar agreste. Uns dizem por aí que antes do pulo ela ouviu uma voz lhe chamando. Outros falam que a própria fenda tinha olhos que, quando se encontraro com os de Oliva, tornaram-se uma coisa só.
Oliva e as fenda do sertão... é possível que pra que uma existisse a outra carecia de estar lá? E, se seca é dor, se seca é morte, Oliva, que era a senhora das águas, senhora das vida, pulou naquele abismo pra transformar o que se opõe em junção e complemento? Filosofias à parte, seja como seja, a menina virou encantada e foi desbravar os reinos subterrâneos de si mesma, coisa profunda e bonita, mas que grande parte dos ômi desconhece...
Muita gente daqui de Bodocó ainda espera pelo nascimento de uma segunda Oliva, acreditando que assim a chuva vai voltar. Mas eu, esse Zé contador de causos, acredito mesmo que o despertar águas e a fartura das plantação só vira quando todo mundo se ver e se entender mar...



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