A monga do sertão e sua cabeleira enfurecida



Era dia era dia era dia. Manhã cedinho e, pela estrada empoeirada de Bodocó, se avistava lá de longe a caravana circense dos Ciganos Esmiuçados. Todo ano era assim: eles rodavam o mundo em busca de novidade e, ao final, acabavam por parar aqui. Na caravana tinha malabarista, bailarina, domador de onça braba, palhaço e um tal de um contador de histórias muito do meia boca, nada comparado a esse Zé que vos fala. 


Os ciganos era um povo sem dente, mas cheios das pulseira de ouro. Conversavam tanto, mas tanto, que nossos ouvido se cansava e produzia muita da cera como armadura para toda toda aquela lorota. Apesar dos pesare, até que era bom. Logo ao lado da feira, eles montavam a lona que mais parecia de eternite, porque toda vez que nós entrava lá, o espetáculo sempre era muito do caloroso. Arre égua, uma suadeira debaixo dos suvaco...

Enfim, seja como seja, bem ou mal, a caravana sempre trazia alegria para o sertão. Só que naquele fatídico ano a coisa não foi bem assim. Se aí na suas terra, ocês tem Chupa Cabra, Mula Sem Cabeça e Cadeirudo, aqui ni Bodocó nós somo assombrado é pela Monga do Sertão e sua Cabeleira Enfurecida. 

E isso só por causa de todo aquele circo. Tu quer saber a lenda da monga? Então se aprochegue que lá vem história...

Bom, só sertanejo esperto como eu que consegue sobreviver a esse clima quente e seco. Em dia normal, Bodocó chega até seus 47graus de temperatura. Não tem geladinho no bar de Seu Bareta que dê conta do calor. As muié só vive de cabelo preso e os ômi sem camisa. A única coisa que consola a gente é que se um dia todo mundo morrer e for parar no inferno, já vamo tá é acostumado com o clima da casa do Tinhoso. 

Brincadeiras às parte, os ciganos que sempre vinham em meados do inverno, se é que podemos assim chamar, naquele ano resolvero aparecer no verão. Oliva, a Senhora das Águas, já tinha sumido pelas fenda há muito tempo e sertão tava impraticável, parecendo brasa de fogueira. As rachadura tomaro o chão e, ao sol do meio dia, era possível ver a ardência dos cacto pegando fogo.

Já lhe disse que eu aumento, mas não invento! Se tu duvida de mim, então pergunte a Cumpade Mané Vieira pra ver se não foi verdade... Agora voltando ao causo, mesmo no meio da quentura os cigano se instalaro e montaram suas barracas.

Depois de muito brincar com a população – e também de roubar as banana da feira, todo mundo viu, que ninguém é besta – eles abriram a primeira noite de apresentação. A entrada custava 2 mil réis, valor esse que muita gente varava o ano ajuntando só para ver o espetáculo. O espaço do circo cabia em torno de 30 pessoas, número esse que triplicava quando a cigana Salamandra vinha na porta com aquela boca carnuda e balbuciava "no, no, no te preocupes. Siempre encaja uno más”. Ninguém resistia àquele charme e aí entrava gente entrava gente entrava gente que, uma vez lá dentro, se espremia e se grudava, tamanho era o suor.  Um cheiro de limão azedo, seu moço...

Depois que todo mundo se ajuntava, vinha o palhaço com suas graça, e assim por diante. Cada personagem causava uma emoção diferente, mas, a bem da verdade é a grande atração era sempre Minaví, feiticeira ímpar pertencente ao Universo Miraculoso do Sul, fundadora do Planeta Caaju, muié muito da poderosa. Naquela noite, depois de tanta espera foi avisado que Minaví não pode comparecer a essa temporada e que, portanto, ela fora substituída pelo mágico europeu, Sir Jack Tatto. Ninguém se alegrou muito, mas resolvemo da uma chance para o cabra.

Sir Jack adentrou na  lona com sua capa e cartola – uma palhaçada – e tirou do bolso uma varinha de condão. “Ohhhhhhh”. A multidão olhava incrédula para aquele instrumento. O mágico pegou em suas mãos um copo e o tocou com sua varinha. Após pronunciar as palavras Salamalim Salamalém, o copo virou uma pombinha que saiu voando noite a fora. “Ohhhhhhh”, ninguém acreditava no que via. Na sequência, ele fez uma rosa virar muié e depois um gigante virar anão e uma carta virar dinheiro. “Ohhhhhh”, “Ohhhhhh”, “Ohhhhhh coisa nenhuma. Esse mágico de araque tá é ludibriando nóis!”, gritou Tinhorão, o ômi mais valente dos arredor. Enraivecido pelo calor e calçando aquelas bota tamanho 53, Tinhorão foi pisando firme pelo circo até chegar ao lado do mágico (que nessa hora, coitado, tava com tanto do medo que tremia feito varapau).

Para encurtar a história, que eu sei que ocê tem mais o que fazer, Tinhorão duvidou da competência de Sir Jack e disse que não arredava dali até que alguma mágica fosse feita com ele próprio. Ê ômi brabo! Encurralado, o pobre do mágico disse que ia transformar o valentão na Monga, uma espécie de ser cabeludo que, dizem, é primo nosso e dos macaco. E entre Salamalins, Salamalens e blem blem blens, eis que uma Monga horrenda se apresentou a todos de Bodocó. “Ohhhhhhhhhh, inacreditável”, ou, “ambilivibou”, como o próprio mágico gritava. 

Convencido, Tinhorão disse que era hora de se destransformar. O que ninguém esperava era que, no instante em que Sir Jack dava início à metamorfose, a pombinha adentrou no circo com um voo rasgante e seu bico foi de encontro à varinha de condão, quebrando o objeto ao meio. Sem ele, não havia poder. 

Dessa forma, Tinhorão, inconformado, teve que conviver com seu corpo de Monga por toda a eternidade. Fugido de Bodocó, ele volta pra assombrar nois todo dia 13 de janeiro, data de sua transformação. De lá pra cá, os ciganos esmiuçados não voltaro mais. Dizem que Sir Jack largou a profissão e passou a trabaiá como alfaiate e que, um feitiço daquele porte, nem mesmo Minavi poderia desfazer. Se a informação procede, eu já num sei. 

De qualquer forma, caso tu resolva se achegar aqui no sertão lá pelo dia 13 de janeiro, mió ter muito do cuidado com a Monga, se não ela vem pegar você.


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