Cacau

 

Fotografia: Etty Fidele no Unsplash


Debaixo da terra seca tinha água. Madalena precisava cavar. A mata ao redor, os bichos, cobra no pé da bananeira, escondida para dar o bote. Madalena não recuava. O perigo já tinha acontecido e se apossado de seu corpo. Ela precisava cavar a terra seca porque tinha sede. Sangrava no ventre, suava na nuca. Aquele dia, fatídico dia. Zé Pietro chegara de viagem, a casa grande estava em festa. A fazenda prosperava e o cacau ali cultivado ia ser exportado para o sudeste do país. Chocolate adoça a boca. O trabalho pesado amarga a vida. Debaixo do sol, água no cantil, pão seco para o trabalhador. Mão deslizando na testa: suor suor suor. Sua mãe engomava os vestidos de Sinhá. Seu pai, jagunço Tião, era o braço direito do Coronel. Ele matava, ele feria, se preciso fosse, o jagunço Tião seria capaz de dar sua própria vida pelos interesses do cacau, pela sordidez daquela gente. E Madalena ali, correndo solta, brincando só. Maltrapilha e maltratada. Ela tinha sede. Ela tinha dor. Suas mãos, calejadas da enxada, sangravam na terra seca. Na pedra do limoeiro, debaixo do sol quente, ela avistava a chegada de Zé Pietro. Filho mais velho, pronto para ser doutor.  Matou-se um boi. Cachaça importada para os convidados. O jovem rapaz sorria. Cachorros latiam. Sinhá chorava. Coronel cantava e baforava seu charuto pelo ar. O dia estava úmido, os olhos de Zé Pietro também. Chamou Madalena. Vamos ali passear. Ela não queria. Gostava de ser esquecida. Preferia ficar resguardada. Zé Pietro  inspirava álcool, exalava torpor. Vamos ali. Logo atrás. Subir na árvore. Pegar cacau. Repartir cacau. Comer o fruto. Madalena tinha medo. Madalena foi empurrada. Madalena se embrenhou nas matas. Zé Pietro ao seu lado. Segurando pulso. Apertando pele. Não tinha cacau. Mas tinha vestido. Rasgado com violência. Tinha calças abaixadas. E Zé Pietro a morder o seio de Madalena. E Madalena a gritar. E Zé Pietro a abrir as pernas de Madalena. E Madalena a chorar. E Zé Pietro satisfeito ao se vestir. E Madalena só. No vazio. No silêncio da mata. Com as pernas marcadas de gozo e sangue. Com o coração batendo de dor. Ela precisava cavar. Sua sede era mais forte do que a terra dura e seca. Do que a cobra pronta para dar o bote. Madalena cavou. Cavou. Cavou. Encontrou sua água: era um facão. Amolado. Sujo. Preciso. Madalena correu. Zé Pietro não viu. De costas. Distraído. Foi atravessado ao meio pelo facão amolado. Arregalou os olhos. Abriu a boca. Derrubou o copo de cristal. Caiu ao chão. Duro. Frio. Morto. Madalena sorriu. Matara sua sede. Estava saciada.

Comentários

Postagens mais visitadas