Cacau
Debaixo da terra seca tinha água.
Madalena precisava cavar. A mata ao redor, os bichos, cobra no pé da bananeira,
escondida para dar o bote. Madalena não recuava. O perigo já tinha acontecido e
se apossado de seu corpo. Ela precisava cavar a terra seca porque tinha sede. Sangrava
no ventre, suava na nuca. Aquele dia, fatídico dia. Zé Pietro chegara de
viagem, a casa grande estava em festa. A fazenda prosperava e o cacau ali
cultivado ia ser exportado para o sudeste do país. Chocolate adoça a boca. O trabalho
pesado amarga a vida. Debaixo do sol, água no cantil, pão seco para o
trabalhador. Mão deslizando na testa: suor suor suor. Sua mãe engomava os
vestidos de Sinhá. Seu pai, jagunço Tião, era o braço direito do Coronel. Ele
matava, ele feria, se preciso fosse, o jagunço Tião seria capaz de dar sua
própria vida pelos interesses do cacau, pela sordidez daquela gente. E Madalena
ali, correndo solta, brincando só. Maltrapilha e maltratada. Ela tinha sede. Ela
tinha dor. Suas mãos, calejadas da enxada, sangravam na terra seca. Na pedra do
limoeiro, debaixo do sol quente, ela avistava a chegada de Zé Pietro. Filho mais
velho, pronto para ser doutor. Matou-se
um boi. Cachaça importada para os convidados. O jovem rapaz sorria. Cachorros
latiam. Sinhá chorava. Coronel cantava e baforava seu charuto pelo ar. O dia
estava úmido, os olhos de Zé Pietro também. Chamou Madalena. Vamos ali passear.
Ela não queria. Gostava de ser esquecida. Preferia ficar resguardada. Zé Pietro
inspirava álcool, exalava torpor. Vamos ali.
Logo atrás. Subir na árvore. Pegar cacau. Repartir cacau. Comer o fruto. Madalena
tinha medo. Madalena foi empurrada. Madalena se embrenhou nas matas. Zé Pietro ao
seu lado. Segurando pulso. Apertando pele. Não tinha cacau. Mas tinha vestido. Rasgado
com violência. Tinha calças abaixadas. E Zé Pietro a morder o seio de
Madalena. E Madalena a gritar. E Zé Pietro a abrir as pernas de Madalena. E
Madalena a chorar. E Zé Pietro satisfeito ao se vestir. E Madalena só. No vazio.
No silêncio da mata. Com as pernas marcadas de gozo e sangue. Com o coração
batendo de dor. Ela precisava cavar. Sua sede era mais forte do que a terra
dura e seca. Do que a cobra pronta para dar o bote. Madalena cavou. Cavou. Cavou.
Encontrou sua água: era um facão. Amolado. Sujo. Preciso. Madalena correu. Zé
Pietro não viu. De costas. Distraído. Foi atravessado ao meio pelo facão amolado.
Arregalou os olhos. Abriu a boca. Derrubou o copo de cristal. Caiu ao chão. Duro.
Frio. Morto. Madalena sorriu. Matara sua sede. Estava saciada.



Comentários
Postar um comentário