Café no Ponto

 


Café amargo, forte, intenso. Dois dedos de leite líquido desnatado. Caneca branca. Temperatura morna. 

O ritual é na varanda, de manhã, ao raiar do dia. Mormaço com nuvens espaçadas no céu. Transeuntes a espera do Lapa LB2, no ponto de ônibus da esquina. Janelas e apartamentos fechados. A cidade ainda dorme - ou se espreguiça nos lençois amarrotados. 

Um bem-te-vi me assovia logo ao longe e contrasta seu canto com o timbre do Djavan, rente, me sussurrando aos ouvidos: "viver mais, pra ser exato".

O silencioso som do universo batuca em meu peito um samba ritmado, no campo de possibilidades e afetos. Nesse domingo preguiçoso, no instante já, me deixo transpassar pela vida que me cerca. Sem pensar, sem mentir, sem elaborar planos de fuga outros: Estar presente em presença, corpo, estômago, sorriso. 

Meus olhos comovidos contemplam o mundo enquanto o mundo me contempla em retribuição. A manhã é de acolhimento, garantem todos os astros. Nesse fragmento de cotidiano, no agora em que pertenço, me caibo por inteira. 

Comentários

Postagens mais visitadas