Pé na neurose
Olha, doutora, se eu posso te contar
um segredo, a bem da verdade é que eu tenho um quê de obsessão por pés. Desde pequetitica.
Gosto de olhar o formato das unhas, o tamanho dos dedos, a maciez do calcanhar.
Pé masculino, feminino, grande, pequeno, largo, fino, pé de tudo quanto é tipo.
Foi num dia claro e lúcido, que
reparei pela primeira vez nos pés de minha mãe. Que visão horrenda, doutora! Seu
dedo do meio era maior do que todos os outros. E também caído. Como se não
bastasse, minha mãe, que sempre fora fissurada em arrancar pedaços de pele com
o alicate, possuía feridas entre a unha e a cutícula.
Nunca pude me esquecer daquele momento
em que meus olhos que apenas viam, passaram também a enxergar. Desde então, sempre
corri atrás dela, apontando-lhe o dedo e gritando em tom de deboche, “nossa
mamãe, seu pé é monstruoso”.
Ela, nada feliz com minha exaustiva repetição,
me rogou uma praga. Disse que eu só me casaria com alguém de pé muito feio. E,
desde então, a cada nova paixão, a profecia se cumpre em minha vida. Nunca namorei
alguém de pé bonito e isso me causava uma espécie de enjoo matinal quando, ao
acordar após uma noite intensa de amor, abria meus olhos preguiçosos e me deparava
com um pé grotesco querendo encostar no meu.
Não sou um poço de beleza, mas tenho
lá minhas qualidades. Me adapto fácil a qualquer situação e gosto de praticar a
leveza e descontração no cotidiano. Aboli a carne e tudo de origem animal da
minha vida, pratico yoga e atividades que me proporcionem tranquilidade, me
embrenho pela mata, gosto de acampar e de aventuras mil. Não desejo mal a ninguém e fico aqui, a me
perguntar, por que essa sina do pé feio me persegue? O que eu fiz para merecer
esse desgosto?
De uns anos para cá acho que
desenvolvi alguma neurose, doutora. E é por isso que estou aqui. Não consigo
mais me envolver com ninguém. Para mim, é pré requisito que, no encontro romântico, o outro possa ir de sandália. Sim, a primeira coisa que
olho são seus pés porque, você há de concordar, caso um dia eu venha a me casar
e ter filhos, desejo o melhor para eles, ou seja, graciosidade de corpo
inteiro. Se não for possível, como hei de ama-los em sua inteireza?
Que essa terapia não permita que eu
permaneça assim! Não consigo mais valorizar a delicadeza de ninguém. Ando pelas
ruas de cabeça baixa, olhar atento, procurando um pé que possa me agradar. Por
outro lado, devo também lhe confessar, me sinto muito insegura. Se a minha
procura der certo, precisarei reaprender a me relacionar, porque veja, o meu pé
também não é bonito, logo, esse outro ao meu lado, acabaria por ser superior a mim.
E se outras mulheres também o
quiserem? E, em ele sabendo da sua potencialidade, optasse por sempre sair de
sandália, exibindo seus dedos impecáveis e todo o seu esplendor de quem possui
um pé perfeito? Como eu poderia conter, doutora, os meus anseios? Não queria
admitir, mas eu acabei me acostumando aos enjoos matinais, decorrentes da visão
de um pé feio ao meu lado. Sem ele, o enjoo, o meu acordar estará incompleto e
o dia não poderá seguir como de costume.
O que faço, doutora? Imagino que outros
pacientes venham aqui com problemas muito mais relevantes ou escabrosos, sei
que o meu não é lá essas coisas. O meu não é lá essas coisas, não vou de mal a
pior. Na verdade, olhando por outro ângulo, tenho orgulho de mim mesma, sei
lidar bem com a situação. É, é, eu tenho razão, eu sei lidar com a situação. O mais
viável nesse caso não é dificultar algo bobo, mas sim interromper a terapia, pois
posso começar a criar valores estranhos em torno de um detalhe do meu ser que
chega a ser gracioso. Muito em breve, hei de dar risada com meu futuro esposo
sobre tudo isso.
Bom, acho que essa sessão me ajudou
bastante e agora eu vou indo. Ah, a propósito, assim como o de minha mãe, o seu
pé também é horrendo, melhor não continuarmos, caso contrário, posso acabar me
envolvendo contigo. Um abraço, doutora, até mais.



Bom dia Mari! Meus pés são horríveis!!! E no momento anda com fissura por sandálias diferentonas daquelas que não se encontra em todas as lojas. Talvez uma forma de esconder a feiúra dos pés ou de chamar a atenção mesmo quem sabe. Na dúvida acho que preciso de um divã .
ResponderExcluirAmei o texto !!!
Eu adoro o meu pé... mesmo ele sendo esquisito...uso e abuso de sandálias abertas e coloridas... Viva o meu pé!
ResponderExcluirEste comentário foi removido pelo autor.
ResponderExcluirPé feio é feitiço para paixão! ❤️
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