Morte em matrimônio
No meio de nós havia outra, surgia uma. Oculta,
silenciosa, intensa e onipresente. Era eu e era ele. Era ele e não era ela. Era
ela e era eu – vestida de branco, vestida de noiva. Na camareta da igreja –
dessas igrejas parecidas com tantas outras -, eu fumava um cigarro e olhava
para o céu sem estrelas e sem luar.
Pensava: era ele lá fora, nervoso, cabelo em
gel, barba feita, postura altiva. Aquele homem, aquele rosto, minha primeira
visão ao acordar em manhãs rotineiras. O beijo de bom dia antes de ir
trabalhar, o almoço de domingo na casa da sogra, o sexo em brasa regado à
Malbec e Carmenere. O aniversário de namoro, o andar de bicicleta, aquele pic
nic com um anel escondido no bolo de cenoura.
O choro, aceite, os planos. Lua de mel em
Paris, filhos para daqui a três anos, quem sabe. Casa própria, estabilidade
financeira, um cachorro filhote, Labrador. Era ele, meu clichê e meu poema –
verso livre, decassílabo. Era ele o meu óbvio, a minha certeza pegajosa, minha
alegria morna.
“É preciso para de fumar”, ele dizia. “Vou ali
na banca comprar outro maço”, eu retrucava. Entre Marlboros e moedas, ela me surgiu.
De repente, no inesperado de uma rotina maquinada – minha! Seu nome era Morte. A
nada pertencia e a todos assaltava. Em emboscada, despretensiosamente. Mulher,
cabelos negros e longos, olhar penetrante, fala mansa. Convidativa. Morte era impermanência,
dúvida, fúria em descontrole, potencia do porvir.
Me pediu um cigarro e fumou comigo debaixo de
uma sacada. Deixou seu corpo encostar no meu e, de súbito, estremeci. Ela era
quente e voraz. Morte anotou seu número em um papel amassado, me entregou,
partiu.
Andei trôpega atrás dela, caminhos tortuosos. Dia
e noite, noite e dia, meu coração cambaleante ritmava o próximo encontro. E assim
aconteceu. Primeiro um, depois outro e mais outro e mais outro. Com o passar
do tempo, que não sei ao certo quanto Tempo durou, eu estava entregue: paixão
passional, segredo prescrito, acontecimento em torpor.
Morte entrou no meio do que era nós,
até que desapareceu da mesma forma que chegou, no insuspeitado instante já. O que
era eu e era ele entrou em ruínas, uma vez que a intensidade do meu desejo
febril era eu e era ela.
Quase enlouqueci! Pensei em me entregar ao
suicídio, mas qual o que, me faltava coragem para romper com aquela existência que,
mesmo incolor, era a que possuía.
Os anos se passaram e, com eles, vieram os
preparativos do casamento. Morte se tornara uma vaga lembrança que não se sabia
real. Sonho, imaginação, plano de fuga.
Estava tudo certo para que eu subisse ao altar.
Até que, na camareta da igreja, fumando um cigarro e olhando para o céu sem
estrelas e sem luar, Morte apareceu. De frente para mim, sem pestanejar. Me pediu
fogo, me convidou para com ela partir, estendeu-me a mão.
No meio de tantas certezas sólidas que me circundavam,
escolhi o risco. Me despi de noiva, me vesti de vida pulsante. Senti meu corpo
queimar. Em um entrelace de mãos, fugi com Morte.



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