Pingo de Lilo

Fotografia: Mariana Kaoos

 

Minha avó não gostava de cachorro, naquele tempo, outro, em que  ninguém dizia abertamente que não gostava de cachorro. Meu avô seguia os passos de minha avó, mas fugia pela lateral da casa para dar comida aos pombos. “Impossível alimentá-los, transmitem doenças para toda a família”. Alertava de forma constante o doutor que atendia o povoado.

As flores cresciam em abundância e, ano após ano, tomavam toda a fachada da casa. Em manhãs chuvosas, era possível observar as gotas de orvalho enxarcando a terra, molhando os pombos, banhando o cão que, inexistente, latia sem parar.

Lá dentro, os lençóis amarrotados, brancos, limpos, macios. O cheiro de café passado no coador, o banho em chuveiro elétrico, aquecendo o acordar diário. É preciso, mais tarde, colocar gasolina no fusca, organizar o armazém de cacau, cantar o hino nacional antes de dar início às aulas do turno matutino.

E, entre as arestas dos afazeres, as flores rizomáticas, os pombos com fome e aquele cachorro, pequeno, dengoso, feliz. O pingo de vida que acompanhava minha avó.

Ela, mulher de ação, concentrava sua existência no presente do instante em que habitava e podia pegar. As ordens bradadas por sua boca, contrastavam com a doçura ofertada por suas mãos. Dois olhos verdes, mais bonitos que a mata, mais bonitos que o mar, apaixonados pela ação profusa – profunda – que ela criava para si. Não carecia de ter cachorros, o que ela possuía já era o bastante. Assim pensava ao olhar meu avô, soturno, defronte a estante de livros. Ele, silencioso, observava a vida com olhos de filósofo. E encontrava nas palavras datilografadas a comunhão necessária para se auto intitular como um homem feliz.

Nos meus festivos encontros com bobô, como costumava chamá-lo, nunca tive a oportunidade de perguntar como ele entendia o tempo. No entanto, por lhe ver sempre dotado de uma enorme sabedoria, desconfio que ele não o decifrava de modo linear. Isso eu criei nele e trouxe para mim. Ou apenas herdei, não sei. Seja como for, é justamente por essa lucidez que sei que, naqueles dias, outros, embora não houvesse cachorro, ele sempre estivera lá.

Atendia pelo nome de Vanderlei. Era marrom e barulhento. Dócil, tinha como melhor amiga a moça que trabalhava no bar da esquina. Digo, a bem da verdade é que, embora ela fosse, de fato, sua melhor amiga, ele se dava com qualquer um. Vanderlei era bonito de uma forma tão branda que, distraída, eu passava tardes e mais tardes a olhá-lo sem pensar em nada, apenas contemplando seu ser no mundo.

Ainda que minha avó fingisse desconhecer sua aparência, eles eram idênticos na forma de amar: o que se estabelecia como afeto para aquele cachorro e para aquela senhora era inocência, complacência e entrega. Minha avó e Vanderlei se completavam de forma única, ímpar. Pareciam até que tinham vindo de uma mesma essência divina. Meu avô, por sua vez, nada falava, tampouco os pombos ou as flores da fachada da casa.

Eu, que assistia tudo aquilo como se estivesse na sessão das dez, do Cinema Eldorado, torcia para que, no fim, todos, em latido ou fala, se conhecessem. Mas não se conheceram. Os acontecimentos atendidos pela alcunha de vida, foram desmembrados em alegrias, perdas e ganhos, partidas e chegadas, possibilidades, memória e esquecimento. Narração.

A árvore fora podada, os pombos voaram para o sul e a casa, carcomida, ficou em frangalhos. A chama que mantinha meus avós vivos se foi e os corpos de ambos foram enterrados no cemitério da cidade, um ao lado do outro.

O único que ficou foi Vanderlei. Desde aqueles tempos ele se preserva filhote, companhia e absorção. Está aqui, sempre ao meu lado, mordendo meu calcanhar, correndo atrás da bola, dormindo no meu colo e, por que não, acrescentando sentido ao que produzo e sinto.

Não revelei anteriormente, mas Vanderlei, assim como minha avó, possui olhos verdes, mais bonitos que a mata, mais bonitos que o mar. Em sua presença tenra, ele me ensina o dobro do que aprende comigo. E, de forma sutil, me mostra que a corrosão do esquecimento não tem força para destroçar o meu amor. Tudo é chegada e permanece esplêndido: as flores na fachada da casa, os pombos, meu avô soturno, minha avó voraz.

Nesse momento, Vanderlei late! Escuto o seu timbre ressoar na minha infância...

Comentários

  1. É tanta poesia que fica difícil encolher qual a melhor parte do texto...confesso que fico embriagada em todas as palavras, tão bem representadas em uma linda e inesquecível estória de vida. Parabéns Mari, vc me encanta...

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  2. Lindo, muito lindo... assim como você. Te amo.

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  3. Este comentário foi removido pelo autor.

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  4. Que texto fluído, lindo, incrível! Você escreve maravilhosamente bem, Mariana. Esta leitura me despertou memórias saudosas e o desejo de conversar mais sobre o tempo e sobre a vida com as minhas duas avós...

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