Saudade sem rosto

 

Fotografia: Amanda Nascto

Tenho evitado escrever, para não acabar tropeçando em você no meio de minhas tolas palavras vãs. Inevitável redundância! Os fonemas me acompanham, hora após hora, e tua lembrança também. 

Digo, você permanece rente, mas, agora, em um tom turvo, sombreado. E talvez o meu medo esteja justamente aí: ao jogar verso no mundo, acabo por admitir que você é um borrão. 

Nossas horas, encontros que ecoavam tempo, afeto e memória. Aquele lugar. Você dando deixa, eu jogando pinta. Transávamos espelho e nudez, entendimento. Não previ, não supus e, mesmo assim, encontrei meu eu no teu silêncio - pura rouquidão. De tanto falar, estremeci os demônios que habitavam em mim. E bradei pelo rompimento das culpas herdadas. Altiva, encontrei o timbre necessário para protagonizar o que digo. 

Você era plateia, desafio, enfrentamento. Impossível me esquecer do teu sorriso de canto de boca quando, na minha soberba de amar, pronunciava uma barbaridade qualquer. 

E teus olhos, ah, teus olhos me despiam para o fronte da minha existência. Como foi glorioso e difícil, como foi dolorido e delirante permanecer imóvel à sua frente enquanto você balançava minhas verdades. 

Fomos tanto, que rompemos (porque a vida quis assim). Do nosso fim, esse eterno recomeço. Não te vejo, não te toco, entre nós não tem mais, não tem mas e, mesmo assim, aqui você está: na distração do meu pensamento, na reza antes de ir dormir, na música do Zé, nesse escrito corrosivo e melancólico, na labareda desse verão vulcão pandêmico em erupção. 

Não me lembro certamente da tua forma. E quando ando por aí, com minha pupila dilatada para o seu ser, me confundo com quem passa e fico inebriada com os cheiros e a ondulação - do mar e dos cabelos alheios. Será que essa ondulação te pertence? Consolido dúvidas. E por isso te criei como personagem do Caaju, como Oliva do Sertão. Quanto mais você vive em realidade fantástica na minhas páginas ermas, menos gente você é. Ou borrão, como disse anteriormente. Você pessoa me é borrão. 

Existe uma espécie de dor no meio disso. Vazio. Receio. Solidão. Quem virá depois de ti? Reluto e me compadeço com a sua partida. 

É difícil te deixar. E é tão fácil te deixar. Contradigo o que acabei de postular: existe uma espécie de alegria no meio disso. O que se consolida no real é devir. Surpresa. Exaltação. Frio na barriga. Tua partida abriu caminho para que outras coisas surgissem. Quem virá depois de ti? Me sensibilizo e celebro a possibilidade de nada ter que concluir a partir de todas essas sensações...

Iniciei essa carta em uma nostálgica noite de sexta-feira. Finalizo ela em uma clara manhã de domingo. Os ônibus já começam a circular e, logo mais, o moço da barraca de flores dará início às vendas. Tomarei café e irei lá para lhe dar bom dia. Comprarei uma rosa branca pensando em ti... 

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