Dona Amélia segundo minha mãe

 

 



Naqueles tempos em que o tempo era outro e eu me configurava apenas como um sonho dentre tantos na cabeça de minha mãe. Vivi aventuras de príncipes e princesas através da fala, palavra memória estendida até o hoje, momento esse, presente, em que jogo verso no mundo.

Todo domingo de manhã os moradores da cidade – uma pequena província no sul da Bahia – eram acordados com o cheiro do bolo de Dona Amélia. Embora essa não fosse sua principal ocupação, Dona Amélia sempre fora conhecida como a maior confeiteira da região. Não havia uma pessoa sequer que não desejasse experimentar os quitutes daquela senhora.

Esposa de Gerineldo Martins, mãe de sete filhos, moravam em uma casa espaçosa, com varanda e quintal carregado de cerejeiras. Embora se dessem bem como todo mundo, isso é fato, o buchicho da cidade girava em torno das polêmicas que rondavam a família. Dona Amélia, além de confeiteira, era também fofoqueira de mão cheia.

Não podia ver Chico descendo a ladeira da caixa d’agua de bicicleta, que ia correndo contar para minha finada avó – que Deus a tenha – as peripécias do menino. Ele era um dos irmãos de minha mãe. Dos quatro filhos, o mais carinhoso e também o mais travesso: Chico levantava a saia das mulheres, tocava campainha dos vizinhos e saia correndo, jogava pedras nas vidraças e, como dito logo acima, adorava explorar ladeiras, ruas e vielas montado em sua bicicleta. Chico era um menino feliz como tanto outros por aí. No entanto, era ele  o escolhido de Dona Amélia, que cismava em narrar – e aumentar – tudo o que ele aprontava só para vê-lo levar uma palmada na mão.

A rotina da fofoca se estabelecia quase que como um ritual: todo sábado, final de tarde, Dona Amélia enrolava três pedaços de bolo de carimã em uma toalha e caminhava em direção à casa de meus avós. Minha avó passava um café fresquinho e, sentadas na mesa da copa, começavam a confabular. Chico, esperto com a dinâmica, se escondia para não levar bronca até o momento da saída de Dona Amélia. Mas era tudo em vão. Ao saber dos causos do menino, minha avó corria pela casa com o chinelo na mão bradando “salve-se quem puder”.

O rito da fofoca durou anos a fio, até que meu avô, cismado, proibira a todos de manter relação de amizade com os membros da família Martins. Isso porque, veja só, num belo dia qualquer, Gerineldo – esposo de Dona Amélia – passou pela frente do armazém de cacau chamando por meu avô e, quando este se virou, recebeu uma bela de uma banana. Onde já se viu um homem de respeito dar uma banana para outro homem de respeito? Aquilo era demais e ultrapassara todos os limites da civilidade e dos bons modos. Em fúria e inconformado, meu avô decretou que, daquele momento em diante, a relação com aquela família estava cortada e que Chico poderia subir e descer a ladeira da caixa d’agua quantas vezes lhe desse na telha.

Para piorar a situação, Gerineldo Martins, que gostava de se amostrar, inventou de levar uma onça para a principal praça da cidade. Incrédulos e hipnotizados, os meninos das redondezas fizeram festa para a grande atração. Nunca tinham visto uma onça de perto e aquela cena era a maior novidade de todos os tempos. Chico – sempre Chico – metido a valentão, inventou de passar a mão no animal que, assustado, abocanhou seu braço direito. De uma hora para outra foi aquele correria, foi aquele chororô – “Corre para pegar o fusca, vamos para o hospital!”.

O menino levou 15 pontos e foi também esse o número de anos que meu avô e Gerineldo Martins ficaram sem se falar. Posteriormente, o caminho de ambos voltaram a se cruzar e rendeu uma grande parceria, mas isso é história para outra oportunidade...

Aqui, nesse fragmento de vida, o que permanece é a boca salivando de minha mãe, sempre desejante dos bolos de Dona Amélia. Na sua infância, minha mãe pouco entendia da rixa entre as famílias e da proibição das brincadeiras. Até hoje, no entanto, ela afirma para mim que o sabor do seu eu menina tem o mesmo gosto do bolo de Dona Amélia: doce derretido que faz sorrir, mas jamais encontrado em outro lugar que não no saudosismo do ontem.

Eu, que nunca experimentara dos quitutes e tampouco conhecera Dona Amélia, acordei hoje sentindo aroma de bolo assando, com muita água na boca. Terei o privilégio de um dia, quem sabe, provar das vivências daquele lugar, com sabor de carimã?

Comentários

Postar um comentário

Postagens mais visitadas